O que falta para o entendimento do movimento politico que se espraia pelo Brasil ? Um modelo!


Existe uma diferença fundamental entre os homens comuns, os chamados intelectuais e  os cientistas, estando esses dois últimos tipos bem próximos. Essa diferença não se prende a nenhum aspecto outro que não seja o esforço de pensar, amparado em uma educação científica sólida. Tal distinção faz com que ambos não se misturem, qual a água e a gasolina. A polaridade diferente, entretanto, pode ser vencida, quando o ritual da autoridade é cumprido, permitindo que um e outro se comuniquem, cada um em sua trincheira. O problema é que o merecido descrédito da intelectualidade local  justifica o rompimento de ritos e já não se faz fácil harmonizar elementos de polaridades distintas.

O pensamento científico traz uma chancela indispensável facilmente perceptível  pelos que nesta órbita trafegam. É o uso de um modelo para descrever a realidade objeto de estudo. Esse modelo tem que ser uma simplificação da realidade de forma a preservar os elementos fundamentais do corpo em estudo. Existem outras exigências para que o uso de um modelo se configure plenamente. Para o propósito desse post,  em pouco agregaria o detalhamento da essência didática de um modelo científico. O seu teste e a possibilidade de enquadrar outros modelos específicos são elementos que não se podem perder de vista. Enfim, é necessário um modelo para se discutir qualquer assunto, quando se pretende atingir uma compreensão de algum fenômeno social ou da natureza, em bases sólidas, seguro  à boa lógica.  

Para a minha tristeza, vejo ser exatamente a ausência de um modelo que retrate a realidade brasileira em bom termo o que faz sem sentido ou mesmo indecifrável para muitos o movimento político que explode nas ruas. Embora não possam os homens comuns, os homens que estão indo às ruas com ou sem placas de protesto, entender a essência verdadeira do problema, podem fazer e o fazem muito naturalmente a distinção de um bolo azedo do doce. É óbvia a acidez do fermento social, político e econômico. O ruim mesmo, tornando indecifráveis as pistas que a realidade e o cotidiano oferecem,  é ainda termos por vencer uma propaganda oficial de que estamos melhorando, dando a falsa impressão que existem etapas para a superação da pobreza – ou se é desenvolvido ou se é subdesenvolvido; não existe meio-termo.

Para se ter bem claro as distorções midiáticas, lanço mão da estatística mais básica para retratar a dinâmica social: o PIB per capita. Além de tentarem ludibriar o povo com o uso indevido do PIB em valor nominal, identificando seu volume e posição relativa como potência, há também a contabilidade mequetrefe do PIB per capita. Qualificando essa estatística per capita, pode-se afirmar que  cerca de 170 milhões de pessoas estão numa zona de desconforto financeiro (a renda familiar mensal que sustenta essas pessoas vai de cerca de R$ 700 a R$ 4.900, tendo mesmo uma faixa de miseráveis que abarca três Bélgicas) e que apenas 25 milhões de pessoas poderiam estar numa zona mais confortável (renda familiar mensal  que vai acima de R$ 4.900) e mesmo assim apenas cerca de 10 milhões, uma Bélgica, estariam de fato confortáveis (renda familiar mensal acima de R$ 6.500).

Então, percebe-se que parte significativa da população está numa penúria humilhante. Há razão de sobra para que muitos estejam indignados. As pessoas humildes sabem que a pobreza em que se encontram não conta com sinais de reversão, porque a saúde não funciona e a educação não está fazendo tanta diferença para os que nunca foram miseráveis.

Está em marcha um modelo que leva a grande maioria da população a um quadrante de classe média mixuruca. Além de todo esse sofrimento existe, em decorrência do modelo em andamento,  um setor público totalmente caótico, preso a um mercantilismo  anacrônico em que a qualidade e o preço são em tudo miseráveis, em efeito devastador sobre o setor privado. De fato, as pessoas morrem nas filas dos hospitais públicos e os impostos reduzem a renda do trabalhador em cerca de 40%. O setor privado não pode, certamente, deixar de responder a essa realidade cruel, escancarando-a  pelos produtos caros e de péssima qualidade que consumimos, nós, o povão. Naturalmente, aqueles que estão entre os 10 milhões de preferidos sabem bem que essa fatura cara paga pelo povo só existe pela contrapartida que recebem, em privilégios que se escamoteiam das mais diferentes formas que se possa imaginar. Sem dúvida, é bem engenhosa a máquina de excluir. O seu conhecimento exige atenção analítica a requerer uma qualificação precisa para que se possa resumir a ópera descrita acima. Faço um resumo dessa situação crítica a nos afligir, reconhecendo que não é original, porque já foi expresso por vários outros economistas que estão fora da mídia. Em uma palavra: pilhagem. Esse é o verdadeiro modelo que dá conta da dinâmica mequetrefe que estamos submetidos há pelo menos 50 anos.

Partindo dessa referência simples, mas ubíqua, podemos abordar o problema básico: como desmontar a máquina de expropriação que montaram ? Ela está em todas as esferas públicas, com o açodamento recorrente de grupos privados poderosos a desconfigurar o orçamento público e as cidades brasileiras. São eles, os poderosos, fáceis de serem identificados por suas siglas cartoriais, fazendo funcionar a máquina da extorsão reles. Os exemplos dessa pilhagem vil ocorrem em quase todos os lugares em que o Estado atua. Cito, aproveitando o tema detonador dos movimentos de protestos que pipocam em todos os cantos, o caso das concessões públicas e tarifas controladas pelo governo. Todos os contratos dessa natureza envolvem uma lógica de expropriação perversa: a garantia do retorno do investimento. Tal garantia é o decreto do fim do funcionamento de uma economia capitalista saudável, porque é impossível se garantir retorno ad infinitum a qualquer que seja o setor. Isso só é possível se o governo fechar a conta, através das mais diferentes formas de subsídio. Ele, o governo, nesse esquema de privatização em tudo invertido,  o faz de forma mandatória: está nas leis. A conta é paga por toda a sociedade, em suas diferentes formas.

No jargão dos economistas,  o corolário desse esquema de extorsão seria o da endogeneização dos tributos ou até mesmo da dívida pública. O pior de tudo é quando se pauta por uma política de fixação de juros para se combater a inflação (que estranhamente deixou de ser um fenômeno estritamente monetário). Simplesmente, deixam de levar em conta o efeito que tal política de juros teria nesses esquemas de fixação de tarifas amarrados à garantia de retorno, em indexação compulsória. Uma conta aritmética, em teste simples de ser feito, mostra que a política monetária em vigor só poderá acarretar, endogenamente,  mais tributos ou menos gastos sociais ou mais dívida pública. E se tudo tem seu limite, a inflação ressurge pelo efeito pouco desprezível de uma monetização mascarada. Tal prática de política econômica, em total desarmonia das políticas fiscal e monetária, leva a economia a percorrer trajetórias inconsistentes, em velocidade caótica, recompondo-se, apenas, por arranjos arbitrários que já se multiplicaram de tal forma e a tal ponto de já não se poder mais saber onde está o fio da meada. Outro exemplo óbvio é o da tarifa dos ônibus: a caixa preta do sistema não será fácil de ser aberta, mas, se aberta,  certamente estará o governo federal, em conluio eleitoral, arcando com o ônus contratual, em socorro aos Estados e municípios, sem que as ONGs fiscalizadoras possam ainda ter quantificado o rombo no orçamento público. A dívida pública irá aumentar – endogenamente. Um dia a casa cairá ou pegará fogo.  A sua reconstrução seria simples. Voltar ao esquema institucional que tínhamos há quase 60 anos atrás, em que o esquema de pilhagem tinha sido, em grande parte,  abortado. O nó a ser desatado é o da comunicação do modelo. Se ele em tudo for correto, em conformidade aos padrões desejados, já teríamos dado meio passo. O segundo passo, outras mãos fariam melhor.   


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas