A produtividade do brasileiro continuará indo para as cucuias.

Pela reportagem de Mariana Durão no Estado de S.Paulo em 20.09.2013, para o desespero de quem gostaria de ver a mídia controlada, pudemos saber das artimanhas dos mesmos de sempre em favores estatais que representam uma fatura impagável. Vamos à excelente reportagem:

“ Fábrica de chip de Eike e BNDES poderá importar máquina usada. Uma portaria publicada no início do mês pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) facilitará a importação de máquinas, equipamentos e bens de consumo usados para projetos beneficiários do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis). A maior beneficiada é a SIX Semicondutores, fábrica de chips em construção em Ribeirão das Neves (MG)….. A alteração permite que a unidade, projetada para fabricar semicondutores de uso específico, traga de fora bens de capital usados.“

Você poderia perguntar se tal medida protecionista foi inventada agora pela turma do mensalão. Diria claramente: não! Vou relatar uma outra estória que, por acaso, descobri algures. É uma estória contada pelo próprio beneficiário da política de proteção à indústria nascente, um advogado paulista que bem sabia o caminho das pedras para garantir privilégios e tornar-se empresário de sucesso. Antes de ir à estória faço, valendo-me da internet, um rápido resumo do seu currículo. “José Ephim Mindlin (São Paulo, 8 de setembro de 1914 — São Paulo, 28 de fevereiro de 2010) foi um advogado, empresário e bibliófilo brasileiro. Filho do dentista Ephim Mindlin e de Fanny Mindlin, judeus nascidos em Odessa. Formou-se em Direito, em 1936, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Advogou até 1950, para fundar a empresa Metal Leve S/A, pioneira em pesquisa e desenvolvimento tecnológico próprio no seu campo de atuação. Em sua atividade empresarial desenvolveu grande esforço em prol do avanço tecnológico brasileiro e no processo de exportação de produtos manufaturados brasileiros. José Mindlin deixou a empresa em 1996. Posteriormente, entre outras atividades, presidiu a Sociedade de Cultura Artística.”  

Para uma compreensão melhor da sua ação enquanto empresário, veja também o que diz o próprio Mindlin sobre a Metal Leve e o  Brasil da substituição de importações em entrevista à Revista Locus em junho de 2007.  “Locus – O senhor virou empresário por acaso? Mindlin – Um grupo de pessoas tinha idéia de montar uma fábrica de autopeças e houve dificuldade para conseguir financiamento para o projeto. Como era amigo do diretor do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, acabei me tornando fiador dessas pessoas e, quando vi, fazia parte da empresa. Era a década de 1950 e o negócio aproveitou bem o estímulo que o presidente Juscelino Kubitschek deu ao setor automobilístico e cresceu muito. Foi um momento político importante: quando o Brasil encontrou um líder político com a obsessão do crescimento..... Quem quer se tornar empreendedor precisa ter informações suficientes para conhecer o cenário em que atua. Naquela época, o Brasil estava em um período de grande crise cambial, pois a maioria das reservas acumuladas durante a Segunda Guerra Mundial foi gasta com importações supérfluas. A crise pediu uma política de substituição desses produtos estrangeiros. “

Na mesma internet encontrei a estória interessante contada pelo próprio Mindlin. Ele disse laconicamente que, quando sentiu o impacto negativo do mercado interno, tentou, sem sucesso,  exportar seus produtos. Entretanto, disse ele: fora impedido. Claro, a sua choramingação parou por ali. Não foi adiante em sua reclamação. A resposta para seu silêncio reclamativo logicamente é fácil de conceber. Ele era, como sempre foi, desde o início da sua fábrica de autopeças, um tipo especial de testa-de-ferro das multinacionais. Como bom advogado soube se aproveitar da onda industrializante do governo JK e maquinou contratos que só ele poderia nos revelar. Certamente contratos com limites de atuação, em troca do privilégio de contar com máquinas alienígenas e mercado seguro. Poderia fabricar quinquilharias para a indústria local. Ele detinha o privilégio de vender para as multinacionais do setor automobilístico instaladas no Brasil, uma vez que usava máquinas estrangeiras sucateadas e desenhadas no mesmo esquadro das montadoras de automóveis. Eram capitais externos, principalmente americanos, que se relacionavam umbilicalmente às indústrias automobilísticas a produzirem sucatas. Decerto, o Mindlin, naquele contexto de contratos específicos, jamais poderia exportar para o mercado externo, em tudo mais sofisticado do que o nosso. Não apenas por impedimento contratual, mas principalmente pela impossibilidade factual de vender aos americanos ou alemães produtos de quinta categoria. Ele simplesmente não poderia romper contratos que firmara há décadas, no bojo dos acordos “estratégicos” firmados na Era JK.  Teria que repactuar os contratos, respeitando-se interesses outros. Era, contudo, uma reclamação que tinha endereço certo, o governo que lhe  recompensaria com algum tipo de subsídio. Vale lembrar o cenário político-econômico em que Mindlin se insere: o modelo de substituição de importação onde investimento direto poderia ser feito sem cobertura cambial. A toada desenvolvimentista se resumia no refrão amalucado de se fazer em 5 o que se faz em 50 anos. Evidentemente milagres não ocorrem. O truque do milagre não poderia funcionar sem favores estatais.

No caso Mindlin apareceu ainda, em sua trajetória empresarial, um fato estranho: a tal da abertura do Collor que quase levou à falência a Metal Leve e ao impeachment de Collor. Mindlin diz textualmente (entrevista à Revista Locus citada acima) o seguinte: “Sofremos muito durante a abertura para as importações no período do presidente Fernando Collor. Seu governo manteve as tarifas para o carro importado, mas diminuiu as tarifas de entrada das autopeças para apenas 2%. Então, a concorrência internacional foi gigantesca. Nós – nem ninguém – não estávamos preparados.” Eram novos pactos sendo firmados misteriosamente em que uma nova turma estaria preenchendo o lugar da outra. A pseudo abertura do Collor apenas mudou o patamar do sucateamento e novos acordos foram implementados de forma a se viabilizar a nova estrutura produtiva que se pretendia no setor automobilístico. De fato, para o lado empresarial local, a conta salgada do modelo de substituição de importação da Era Collor ficou com as fábricas de autopeças. No final das contas, a abertura da economia nessa era  é realmente mais um mito fabricado pela burocracia estatal a escamotear o modelo mequetrefe de substituição de importações. 

Outros acordos de gabinete vieram, como sempre tem que ocorrer,  para complementar o esquema do compadrio.  Cito, em especial, o Mercosul, que se pode resumir simplesmente assim: brasileiros e argentinos se revezam na importação e exportação de automóveis e produtos da chamada linha branca (geladeiras, fogões, etc.). Argentinos e brasileiros se abastecem reciprocamente das quinquilharias que os colombianos e os chilenos renegam. A turma por aqui, muito esquerda para o meu gosto,  fica sem entender as razões pelas quais a Colômbia, o Chile e o Peru querem distância dos “hermanos” e aproximação total do Tio Sam. O ponto essencial é que o modelo desenvolvimentista tupiniquim continuou incólume: restrições às importações e políticas de todo os tipos para garantir a produção local para os amigos do poder. É isso que se traduz como capitalismo do compadrio.

Esse fenômeno político do compadrio, entretanto, revelaria a sua face concentradora e empobrecedora. A indústria automobilística no Brasil (apenas de empresas estrangeiras) – uma matriz produtiva bastante significativa e a legítima representante desse modelo mequetrefe - vem reduzindo a sua força na dinâmica da economia brasileira, exigindo cada vez mais estímulos oficiais para que possa manter o padrão de emprego e produção crescentes, além de continuar representando uma sucção enorme de recursos da população. Algo diferente ocorre nos EUA, Japão, Alemanha, Coreia do Sul e até mesmo na China, que está buscando a liderança na produção de automóveis. A razão é simples: eles não são montadoras e muito menos estão envolvidos em esquemas cartoriais protecionistas na dimensão do que se verifica aqui.

O ponto interessante a ser considerado é que o fenômeno da industrialização da Era JK poderia nem sequer ter produzido, em seu inicio glorioso, um efeito positivo sobre a produtividade. Certamente, com a proteção inicial promovida por Juscelino, o impacto negativo de tarifas majoradas sobre muitas empresas deve ter deslocado a curva de custo médio dessas empresas desfavoravelmente ou mesmo provocado a falência de muitas. Some-se a isso o fato de que deixamos de importar automóveis para importar máquinas sucateadas para fazer automóveis e aí chegaremos a uma conta pouco favorável aos brasileiros; conta que nunca foi feita pelos nossos acadêmicos. O que é certo é que logo adiante o modelo da industrialização milagrosa – sem o custo do investimento em educação e pesquisa e principalmente do teste de qualidade (mercado livre) – mostrou a sua face pilhadora. Os industriais locais ou os estrangeiros não poderiam se sustentar sem os favores governamentais.

A ajuda governamental tornou-se simplesmente essencial para a sobrevivência do modelo. Pior do que isso. Era necessário  uma ditadura para garantir “legalmente” os privilégios desenvolvimentistas, principalmente quando a engrenagem ficasse comprometida pela exaustão do modelo. O resultado dessa forma  de compadrio todos sabemos, porque, mesmo sob a égide de uma democracia, em tudo fajuta, favores desproporcionais ainda constam de nosso arcabouço jurídico. Agora, vivemos um impasse e estão os mesmos economistas desenvolvimentistas a propalar mudanças salvadoras na política industrial. No fundo, seriam políticas da mesma natureza daquelas de ontem. O exemplo recente, em gloriosa estratégia de se criar riqueza do nada, vem com o empresário Eike Batista (que não é do ramo da eletrônica): aumentaríamos o emprego e o capital, mesmo que usado máquinas usadas, ou seja, sucateadas. O problema fulcral é o desdobramento dessa política de malandros, que, desde JK, se repete em doses cavalares.

Com a produção de chips de quinta categoria, certamente os chineses, os americanos ou alemães não iriam topar importá-los. Sobraria apenas o mercado tupiniquim. Como nos forçar a comprar porcarias, uma vez que gostaríamos de comprar algo melhor e mais barato que apenas chineses, americanos ou alemães nos ofereceriam? Com tarifas protetoras. Quem compraria tais porcarias? A indústria local, tal qual mequetrefe, criada na sopa dos favores estatais, perpetuando-se as carroças produzidas aqui por efeitos diretos e indiretos. Então, estaríamos de novo produzindo produtos de pior qualidade e a um custo maior do que aqueles produzidos no exterior pelas empresas estrangeiras – insumos e máquinas de pior qualidade e mão de obra mais desqualificada que agora se revela algo óbvio. A produtividade ficará onde está: no chão.  Quando o modelo apresentar sua exaustão, saídas tipo Mercosul seriam intentadas. O problema é que a concentração de renda e a pobreza se perpetuam, mantendo-se como sempre se manteve a famosa divisão Bélgica x Índia, resumida na expressão Belíndia. Estamos cada vez mais Índia do que Bélgica, sem nunca termos tido o padrão alemão. A nossa “Bélgica” é apenas o outro lado da moeda e é tão ”pobre” em sua capacidade criativa, quanto os que vivem na nossa ”Índia” povoada pela ignorância.

A moral da estória é que temos um jogo institucional que se repete há décadas e talvez a séculos. O padrão é um só: um grupo domina o poder político e o usa para seus interesses, em detrimento à maioria da população, impedindo que o conjunto apropriado de direitos de propriedade e de incentivos sejam estabelecidos. Como o jogo é jogado é que deveria ser aprofundado em pesquisas que não podem se restringir apenas às estatísticas. O exemplo recente de Eike Batista apenas reproduz o jogo já jogado por Mindlin na Era JK e da ditadura militar. O desfecho desse filme antigo, as estatísticas estão mostrando. O problema grave é que o país ficou refém da indústria automobilística. Colocá-la nos trilhos de uma economia competitiva custará alguns empregos que estimo sejam recuperados com facilidade. Digo isso  em tese, porque, na prática, interesses poderosos estariam sendo contrariados e bem sabemos o quão violenta é a elite brasileira.

Para finalizar, recomendo àqueles que querem aprofundar o entendimento desse jogo institucional o artigo: Complementary Institutions and Economic Development: An Experimental Study - Andrew Kloosterman and Andrew Schotter November 6, 2012.  Não se trata de uma solução para o Brasil, mas de um artigo técnico que lança luz sobre a forma de se avaliar o jogo institucional que cada país estaria jogando. Já fizemos um bom trabalho sobre a produtividade mequetrefe da economia brasileira em relação à sua quantificação. Passemos às causas!



Comentários

  1. Lamentável que o povo não perceba

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. O povo não pode perceber as estratégias políticas da classe dominante, mas sente na pele o efeito desse modelo pilhador. O problema é que a pouca ambição das pessoas comuns que reparo chega até bem próximo de mim e o isolamento comercial em relação ao resto do mundo podem dificultar as mudanças. Mas de qualquer forma vejo que o povo está indo às ruas com o black bloc à frente. Isso me faz lembrar o ambiente político dos anos vinte do século passado em que os tenentes comandavam a agitação. Chegamos à revolucao de 30 que teve reflexos positivos para a sociedade. Pena que tudo isso terminou quando Getulio se foi. Figura complexa, mas que certamente sempre esteve do lado do povo.

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