Golpe Militar de 1964: 50 anos e nada a comemorar!

Esse tema merece considerações de todos. Vou dar a minha contribuição já adiantando que não estou satisfeito com as análises sobre a ditadura militar de 64. Creio que poucos compreendem realmente o verdadeiro malefício da ditadura militar e em que esfera ela foi determinante para o atraso em que vivemos até hoje. Evidentemente, tortura é coisa de animal e deveria ser reparada sempre; sem anistia. Mas para isso, teríamos que ter verdadeiramente conquistado a democracia. Ela foi consentida.

A democracia sonhada estava sendo conquistada de forma não violenta por todos que estavam na toada de fazer um Brasil mais justo. Seria um Brasil de gente honesta e empenhada de fato com um projeto Brasil para todos. Essa luta tinha uma liderança política legítima: os autênticos do MDB que atuavam no Congresso Nacional. Um grupo restrito de nacionalistas que se resumiu, para fins didáticos e históricos, em 23 Deputados Federais do MDB. Representavam os autênticos a verdadeira oposição, contrastando com os demais integrantes do MDB que, de fato, coonestavam o regime militar. Lá no  Grupo dos Autênticos do MDB não estão Ulysses Guimarães e nem Tancredo Neves. Pelo contrário. Eram esses políticos conservadores elementos da cúpula do MDB que restringiram a atuação desse Grupo Autêntico do MDB em quase todos os momentos históricos desse período ditatorial. Acontece que souberam roubar a liderança política desse Grupo Autêntico do MDB e oposição verdadeira e fajuta passaram todos a constituir uma massa de contestação em que o Grupo Autêntico deixou de ser determinante para as mudanças. O grupo dos autênticos teria que sumir e para isso, através do pluripartidarismo, conseguiram dispersá-los na salada de partidos inventada pelos milicos golpistas. Era essencial esvaziar o grupo Autêntico. Por quê? Porque a democracia seria acordada com nossos algozes. Ou melhor, seria inventada por eles, em presentes irrecusáveis na esteira de uma política de abertura programada e arquitetada pelos milicos golpistas.

Os estrategistas golpistas, como todo malandro bem sucedido, deram um golpe de mestre. Impuseram, sem acordos, a anistia e tal como presente de grego outras tantas concessões foram feitas. Mas sem contestação. Veio também a eleição indireta. Os biônicos ainda tinham importância no cenário político e exerceram seu poder em benefício de quem os promoveu a biônico. De fato, foi uma estratégia inteligente dos milicos golpistas: conseguiram passar uma lei de anistia num ambiente ditatorial e obviamente todos aceitaram de bom grado esse presente de grego. Nele veio a liberdade dos torturadores. Mas vieram ainda outras coisas maléficas em destaque para a chapa Tancredo Neves e Sarney. Eles  formaram uma chapa para a Presidência da República em disputa num colégio eleitoral imposto pela ditadura. O movimento pelas Diretas Já não logrou em vitória. Aceitou-se o colégio Eleitoral. Foi uma eleição urdida nos gabinetes militares e pouco importava quem ganhasse. Até melhor se fosse, como de fato foi, vencedora a chapa Tancredo e Sarney. A pílula do sonho democrático tinha sido engolida. O movimento pelas diretas já, um desvio de bandeira politica retirada dos “nacionalistas" perdida em sonhos, foi capturado pela turma conservadora do MDB e até mesmo da ARENA que aceitou o desfecho final do colégio eleitoral. Hoje essa turma adesista e de baixa resistência às canalhices em geral enfileiram-se principalmente no PSDB, PMDB e PT. Dos autênticos não há mais nenhum para contar a estória. Margondes Gadelha foi o último bastião desse grupo no Parlamento, mas totalmente anulado pelo sistema e hoje encontra-se em seu Estado natal tentando ainda fazer uma política com P maiúsculo.  Talvez reste alguns da turma dos Neo-Autênticos, perdidos em caricaturas partidárias como é o caso do Senador gaúcho Pedro Simon. Conseguiram desvirtuar a democracia e a politicagem se impôs.

Não tenho o que comemorar. O golpe de 64 ainda não foi extirpado. Os efeitos maléficos das politicas dos milicos golpistas ainda repercutirão por muitos anos. O crítico é que sumiram com a liderança dos Autênticos e de seus legítimos herdeiros. Eles foram apartados da política partidária. É impossível, nos termos atuais, surgir um grupo que, no Parlamento,  faça verdadeiramente oposição a qualquer governo que venha a surgir. Sabemos todos em que nada muda passando o poder do PSDB para o PT. Muda a quadrilha, em forró de bandidagem a serviço dos mesmos de sempre. A porta de entrada para a política partidária está fechada para os homens de bem. Os partidos têm dono. Para piorar estão repletos de oportunistas; o que vem justificar a generalização de que politico no Brasil é sinônimo de corrupto.


O que temos aqui , hoje, em termos de política é o resultado desse pseudo pacto entre militares e civis. O que houve foi uma política de abertura bem sucedida para os milicos. Um presente de grego em que conseguiram manter o essencial da ditadura militar: o fim de um ordenamento jurídico minimamente viável para que o país possa de fato crescer. Essa é a herança da ditadura militar: uma ditadura política que garantiu a ditadura econômica. Tiraram algumas poucas peças do jogo ditatorial. Mas o essencial ainda está em funcionamento. A luta continua!


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