Os patéticos arquitetos brasileiros….

Para ser justo, diria patéticos economistas brasileiros, patéticos engenheiros brasileiros e talvez incluísse mais outros tantos brasileiros montados em categorias profissionais usuais num papel igualmente patético. Mas vou ficar preso à arquitetura, porque as nossas cidades se esboroam em material indecifrável, clamando por socorro. O mal já bem localizamos: a política. A maldita política na qual o simples cidadão não pode lutar por seus interesses comezinhos; os fundamentais, impossível. Tudo virou negócio e os políticos sabem como vender a alma, principalmente quando não é a sua. No contexto urbanístico, o tal do plano diretor, aviltado sempre que necessário, não mais representa, se é que um dia representou, um modelo de cidade que se redescobriria e se adaptaria ao seu tempo em preservação de uma cidade boa pra se viver. O esquema básico da pilhagem é simples de se denunciar. Um plano diretor, em vigência interessada, guarda, em restrição planejada, uma mina de projeções ocupadas por casas ou prédios simples, de pouco valor. Quando a cidade realiza seus projetos faraônicos ou o espaço encurta ou mesmo o estoque de projeções específicas mingua, tratam de liberar, em acordos marotos, novos espaços, redesenhados em “moderna” dimensão urbana. O ganho é espetacular: um lote de uma casa podendo ser transformado em edifício é trocado por dois ou quatro apartamentos, com esse edifício abrigando mais de 20 ou 30 apartamentos. Milionários se criam da noite para o dia, quando não já o são, enriquecendo políticos e patifes (sic) que se escondem em títulos de empresários do futuro.

O impacto que essa pilhagem urbana causa na cidade é óbvio: aumento exagerado da densidade populacional, elevando-se os custos da infraestrutura, promovendo também uma malfadada concentração de renda. O pior para  a arquitetura da cidade é que estratégia dessa natureza deixa a cidade monolítica. Só prédios de padrão vertical exagerado. Rareiam os prédios de maior simplicidade. Rareiam os prédios para simples negócios como restaurantes, pequenos negócios, escolas e outras atividades que deveriam compor o mosaico de um bairro. Quanto mais monolítico o bairro, mais solitário e vazio ele fica. A noite torna-se pouca convidativa a um simples passeio e o retorno noturno inseguro ao lar  se instala definitivamente no inconsciente das pessoas. Esse é o padrão da classe média que já chegou a nova classe média inventada por decreto.

Mas o problema urbano não se encerra à própria cidade. Ele é exacerbado pela política agrícola que expulsa pobres e classe média interiorana sem perspectiva para as grandes cidades, empobrecendo-a por invasões urbanas impossíveis de se controlar. No campo, a concentração de riqueza aumenta em passos gigantes que se direcionam para a floresta que não resistirá ao desflorestamento crescente. De novo, um esquema antigo e bem conhecido de proteção aos ineficientes, urdido no início do século passado em cidade caipira, se espraia no tempo e em geografia completa. Hoje o esquema tem  nome técnico: política de preço mínimo e créditos subsidiados. Os mais ricos ficam ainda mais ricos e assim podem avançar sobre aqueles que, por uma razão ou outra, ficam no meio do caminho. O resultado dessa agricultura exógena ao pais em nada contribui para o bem estar da população como um todo, beneficiando poucos. Para as grandes cidades, o resultado dessa política pode se observar pela degradação urbana que já não  encontra vocábulo acurado para descrevê-la. Para escamotear a consequência dessa política econômica descabida nos tempos atuais, um ardil político, distanciando ainda mais pobres de ricos, impõe a ideia de comunidade, quando a favela ainda é o retrato certo dessa desordem urbana promovida pelas mesmas forças de sempre que pouco valor dão ao povo simples e humilde.

O certo é que, se multidão de retirantes preferem a favela ao lugar de onde vieram, tudo por lá nos cafundós do Brasil está em estado de miséria. Nessa toada da favelização das cidades surgem os políticos oportunistas a pregarem um déficit habitacional que nunca se esgota. A solução da moradia em função do problema do déficit habitacional é outra bobagem alardeada por políticos e  oportunistas, porque não há lógica para que todos sejamos proprietários. Há uma lógica para que existam inquilinos e proprietários. É bom para todos. Evidentemente muito pode ser feito para a preservação de um equilíbrio que se desenrola desde tempos passados. Crises e bonança são possíveis, mas a crise temporária deve ser tolerada. Esse é o segredo da regulação pública no tocante à habitação: manter o equilíbrio histórico para não piorar ainda mais o que temos por herança. Certamente isso não deve colocar um freio às políticas assistencialistas que procurariam extirpar a pobreza humilhante e adequar espaços urbanos deteriorados. É nessa esfera de política habitacional que a mediocridade dos arquitetos se apresenta crítica e escancarada. Um projeto político que nunca contou com propostas alternativas, quando, de fato, pouco se obstaria para mudanças qualitativas a enriquecer ao invés de empobrecer.


A razão, posso imaginar. Não há um modelo urbano aceito pela tribo arquitetônica tupiniquim. Há referência, por paixão ou ideologia,  a Lúcio Costa. Projeto futurístico que só representou o atraso na concepção de uma cidade boa pra se viver.  Onde está o problema fulcral no projeto arquitetônico do criador de Brasília? Na sua ultra especialização: área para moradia; área para ministérios, área para clubes e por aí vai. A solidão é o melhor retrato do plano piloto, o coração de Brasília. Cidade hoje, conforme nos ensina tardiamente o arquiteto dinamarquês Jan Gehl,  deve incorporar em cada bairro os três elementos básicos: trabalho, moradia e pequenos negócios, inclusive públicos. Praças e jardins completariam o quadro ideal. Além disso, o pobre e o rico devem ser vizinhos. Mas o que fazem os políticos em ladainha assistencialista oportunística? Evoluíram dos pombais horizontais para os pombais verticais. Mas pouco custaria imaginar a inclusão nesses pombais verticais os demais elementos urbanísticos. Talvez impossível colocá-los, os pobres, lado a lado com os ricos. Com a exclusão das oportunidades de negócios básicos, o mais provável é que, a partir desses caixotes habitacionais, guetos se desenvolvam. Ideia simples para a melhoria desses projetos habitacionais deveriam ser trazidas à baila, mas os nossos arquitetos não brigam para implementá-las. Não seria uma briga imaginária. Seria simples convencer os políticos, já que mais negócios poderiam surgir. Por que não fazem? Patético!


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