Inflação no mundo animal : o rato come o gato!

 Muito já se escreveu sobre os custos da inflação. Mas os tempos mudam e novas ideias revivem as mesmas ideias velhas, talvez pela necessidade dos tempos. Mas a pergunta pode ser refeita com um novo viés e assim lançar luz sobre novos caminhos ou abismos. A minha curiosidade sobre a evolução da perda do poder aquisitivo me levou a seguinte questão: quanto tempo aguentaria uma redução no meu poder aquisitivo sem que o meu padrão de vida não mudasse substancialmente? Passa tempo e entra tempo e a inflação todo mês reaparece. Fica ali cristalizada em alguma meta malfadada e de fato não percebo com facilidade o quão mais pobre fiquei e se no sobe e desce dos meus reajustes corro no tempo para ajustar meu padrão de consumo, alternando uma falsa euforia com uma melancolia verdadeira. Difícil dizer. Mas vamos lá a algumas possibilidades de ajuste.

Várias seriam as saídas para driblar a inflação. A primeira e mais óbvia é reconhecer que ficando mais pobre um pouquinho que seja tenho que diminuir minha cerveja ou pior mudar do vinho para a cerveja ou da cerveja para o Whisky em dose única equilibrando o teor alcoólico e o custo de me embebedar. Uma combinação complicada que posso mudar ao sabor das promoções que pintam no botequim. A primeira estratégia trata-se do bem conhecido efeito renda; ficamos mais pobres com a inflação. A última estratégia, reagindo às mudanças de preços pela troca dos produtos mais caros por outros mais baratos,  é bem conhecida do consumidor: o efeito substituição. Uma forma perceptível de fazê-lo seria pela mudança na qualidade. Não posso mais tomar cerveja belga; tenho que ficar com a Schim e por quê? Porque sim! 

Podem também os comerciantes, fugindo ao controle de preço ou mesmo para manter sua margem de lucro, inventar de reduzir a quantidade sem que o consumidor perceba. Podem mesmo mudar os ingredientes. Pode ,ainda, quando todos buscam reduzir custos, haver, de fato, uma melhoria na produtividade e inventividade e os preços dos produtos baixarem pelo aumento na produtividade. Podem, ainda nesse caminho de redução de custos ou busca de oportunidades, inventar novos produtos. Nessa franja de novos produtos podem aparecer produtos de pior qualidade a justificar uma mudança na estratégia de marketing condizente com a realidade escaldante.

Posso também ter que trabalhar mais ou gastar menos em coisas supérfluas como a educação dos filhos, transferindo-os para escolas públicas. Em país com tão pouco envolvimento com o comércio internacional, principalmente para os consumidores reles, uma saída temporária aos preços abusivos seria fugir do país em busca de um outro civilizado em tudo, inclusive nos preços. O contrabando nós mesmos fazemos de forma tão descarada como faz o ministro da fazenda em viagem ao exterior, com a diferença básica da impunidade garantida por lei. Ele não passa pelo constrangimento das alfandegas. Nessa bagunça de coisas, a informalidade pode crescer com sonegações de todos os tipos; isso sem falar de coisas roubadas que estão à venda nas esquinas a preço de banana.

Em última possibilidade vem o reajuste tão sonhado dos rendimentos. O problema agora é que já não sabemos a que padrão nos referir. Tudo mudou, inclusive meu termômetro de bem estar.

Claro, quem pode se proteger investindo em demasia em sua segurança financeira pode ter que comer sua aplicação. Se invisto em imóveis, posso deixá-los depreciar um pouco mais do que já habitualmente faço. Se são aplicações financeiras, posso deixá-las num patamar que não repõe o valor real ou assumir riscos que poderão levar à falência. Mas as coisas de fato ficam complicadas quando tenho que aumentar meus gastos na loteria. Ficando mais pobre,  fugindo da depressão tão comum aos ricos, sonhar não tem preço! O triste mesmo é quando o governo, em monopólio do jogo, em estratégia marota, aumenta o preço da loteria e a perseguição aos apontadores do jogo do bicho.



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