Quebras estruturais: procurando o vilão.

     
Se tem alguma coisa complicada em econometria é a identificação da quebra estrutural. A rigor, se temos uma série estatística e ocorrem mudanças discretas nos coeficientes de regressão da população em uma data precisa ou de uma evolução gradual dos coeficientes ao longo de um período temporal mais longo podemos estar certos de que houve uma quebra estrutural. O problema é que precisamos identificar precisamente quando se deu essa mudança. As causas poderiam estar presentes há tempos atrás e ou mudar paulatinamente, com ambas possibilidades se misturando. O fato é que precisamos contar com um número significativo de observações para se ter uma visão razoável da dinâmica da série estatística em análise. Além disso, precisamos contar com referências também significativas.

Nesse particular de quebra estrutural para o Brasil me valho do artigo  de Nuno Palma – A grande Divergência da Lusofonia – que compara o PIB per capita de Portugal com os dos demais países de língua portuguesa. Aproveitei a deixa e fiz o mesmo gráfico. Entretanto, fiz também comparação com outros países: EUA, França, Reino Unido e Chile. O que todos esses gráficos mostram é que o Brasil, embora sempre se distanciando dos países ricos, teve uma quebra estrutural significativa no final da década de 50 do século passado. Comparando o Brasil com Portugal, percebemos a semelhança nas trajetórias do PIB per capita, de forma algo parecido com que se tem com EUA e Reino Unido, Chile e Espanha. Entretanto, nos afastamos completamente dessa trajetória semelhante exatamente no final dos anos 50. O que corrobora minha hipótese de mudança significativa do modelo brasileiro a partir de JK. Evidentemente, a trajetória anterior não garante também que algo significativo estivesse em andamento. Mudanças teriam que ser implementadas como em Portugal foram ou mesmo aquelas implementadas pelo Chile para que não tivesse nos afastado de nossa co-irmã, como são EUA e Reino Unido ou mesmo Austrália e Reino Unido. Vejamos os gráficos.

                         
                                        
Pelo gráfico Brasil x Portugal reparamos que algo aconteceu no Brasil no final dos anos 50 do século XX de tal forma que nos distanciamos de Portugal; fugindo a um padrão histórico de similitudes.









         
 Os gráficos acima mostram que o Brasil estava se distanciando dos países ricos de forma sistemática desde o século XIX – provavelmente até mesmo antes disso (os dados para o Brasil começam, nessa série , em 1870). A mudança se agrava a partir do final dos anos 50.


                               



                 
Para o Chile, os dados mostram que a década de crise se inicia também no final dos anos 50. Todavia, mudanças ocorreram garantindo a recuperação da similitude da trajetória do PIB per capita duas décadas após o debacle dos anos 60. Já para o Brasil, ainda continuamos amarrados a uma dinâmica divergente. E se voltarmos a uma trajetória semelhante, o hiato entre as séries será ainda significativo. Tudo indica que o modelo presente ainda é reflexo do que aconteceu na década de 50 do século passado e que o modelo em essência seja o mesmo. Talvez a máxima correta para nos brasileiros iludidos seja a reversa daquela que muito sucesso ainda faz: em 5 anos se pode destruir o país por mais do que 50 anos.



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