Um alerta à cidade de Miami.

         
Não moro em Miami e ainda não a conheço a vivo e a cores. Moro em Brasília e pouco sei do mundo, embora conheça alguns países. Todos que visitei, excetuando o Paraguai aonde finquei pé apenas na fronteira, no triangulo de cidades fronteiriças em que o lado argentino sobressai apesar da miséria crescente que infligem à Argentina , têm , sem dúvida, cidades muito mais interessantes do que as brasileiras. O meu gosto presumo não ser muito refinado, porque me alienei em Brasília e das poucas escapadas que dei, quando jovem, foram ao Rio de Janeiro e lá a degradação já era latente e irreversível àquela época de mais de 40 anos atrás – só não pude ver que a favelização aumentaria a passos largos. 

Com o passar do tempo, em observação ao mundo civilizado, na poeira irrisória do tempo, notei que não poderia nutrir simpatia a Oscar Niemeyer e a Lucio Costa. O primeiro, em parceria eterna com o poder constituído, conseguiu impor palácios e catedrais num estilo caipira que em lugar nenhum do mundo se reproduziu, excetuando uma cidade , se não me engano, na Espanha que ninguém sabe aonde fica, em réplica tímida a alguns desses monumentos ligados aos reis e imperadores. Fora de época; matutos com certeza. O segundo imaginou uma cidade futurística, em cópia Corbusier que o mundo rejeitou, inovando em cruz o urbanismo fanático. Reinventou a roda quadrada que só o tempo a ajustará ao padrão racional. Os arquitetos criadores de Brasília, com inscrição e carteirinha do Partido Comunista Brasileiro, aceitaram , em conveniência servil, que a miséria fosse imposta aos candangos, dando-lhes como recompensa o privilégio de inaugurarem a primeira favela na escala de milhares de pessoas. Sequer os monumentos os homenageiam, mas os que conhecem o interior duro das obras palacianas ou monumentais lá encontraram, na escuridão das paredes ocas, nomes rabiscados. Foram Josés, Joãos, Euclides e tantos outros que ,com orgulho valente, desafiaram os engenheiros coronéis, gravando seus nomes em cimento endurecido. Quando tudo virar ruína, lá estarão os Joãos em registro antropológico legítimo. Em favor de Lúcio Costa, um arquiteto parido na onda modernista sinônimo de modelo estético da bagunça sob  aplausos de capitalistas rapinas que logo ergueram arranhas céus nas principais cidades do Brasil, neste particular de limite vertical e horizontal às edificações, saiu vencedor e colocou como regra ao Plano Piloto o limite de 6 andares. Mas criou quadras na filosofia da especialização em que ruas não se encontram; apenas cortam ao meio as quadras. Criou ainda a especialização dos Ministérios e Palácios, em que fincam pé a Catedral e o Congresso. Tudo em solidão diuturna, empurrando multidões em seus carros ou lotações no caminho monótono de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Nada disso faz de Brasília uma cidade legitima. O que tem de interessante é que ela, por força de uma lei protetora, conseguiu evitar o padrão da ocupação desordenada que é óbvia e patente nas demais cidades, inclusive as satélites à Brasília. É o instinto pilhador que impera em todos os níveis, em que Brasília só o registra parcialmente pela bendita lei do tombamento; a razão do meu alerta à Miami. 

É sobre esses brasileiros que se enriquecem sem consideração estética e urbanística que nos últimos anos invadiram Miami a minha ojeriza. É em tudo necessário cautela, porque o modelo pilhador é de difícil reversão; quando damos fé, lá está imponente o espigão a se juntar a outros igualmente perversos em sua localização e dimensão. Passa como um fato consumado e assim sendo o melhor para cada cidadão é aproveitar a oportunidade ladina. O enriquecimento fácil que só poderia existir com algum tipo de corrupção ou esperteza atrai outros pilhadores e até mais impetuosos. A bagunça vai devagarinho se infiltrando e o futuro ficará comprometido. Não deixem Miami progredir nos padrões tupiniquim. Estanquem esse falso progresso; expulsem esses brasileiros empresários da construção civil. O lugar deles é no Brasil que permite e gosta e até precisa desse tipo de gente. Não se esqueçam das cidades agradáveis da Califórnia e de tantos outros lugares igualmente agradáveis. Acuso sim, esses brasileiros sem escrúpulos de estarem ocupando Miami em seu próprio interesse, gerando prejuízos a cidade que só no futuro será devidamente contabilizado. Como solução, digam: não ao crescimento de Miami a qualquer custo. Cidade inchada é sinônimo de doença social: algum tipo de pilhagem que beneficia poucos em detrimento de milhares.


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