Só há o que Temer!

Já quase não falo mais sobre economia brasileira fora da sala de aula. Lá, sob a minha batuta, não deixo a ideologia ou os interesses reles contaminar os argumentos, embora reconheça que economia seja essencialmente economia política – a que retrata os interesses dos agentes econômicos. Adianto logo. Não me identifico com nenhum livro sobre economia brasileira e poucos são os artigos que me motivam. Acho que todos precisam ser revistos. Em essência, a crítica é que invariavelmente os pesquisadores apelam para uma análise escada (sobe inflação, desvaloriza cambio e por aí vai). Mudanças, então, são necessárias. Mas isso exige pesquisa. Como pista para os estudantes de doutorado em economia, repriso o que digo em aula: há uma abundância de temas para objeto de pesquisa. Isso requer tempo e dinheiro. Portanto, procurem boas universidades – preferencialmente estrangeiras – que possam abarcar temas de historia econômica brasileira. Se assim fizerem, terão garantido uma carreira acadêmica repleta de esperança e trabalho digno.

Procuro rotineiramente algum canal informal para o debate, como blogs ou facebook. O problema é a falta de critério para hospedar comentários e a condescendência se mistura com  leniência e esse canal fica prejudicado. Em sua grande maioria ou são puxa-sacos ou fundamentalistas. Para piorar, quando argumentam, os clichês abundam. Por vezes fracasso em meu intento de um debate saudável. Tenho culpa em parte, porque me valho, por vezes, de comentários sarcásticos, mas que retratam minha exigência por um certo padrão de conduta. Solidariedade e ética não as abandono. E quando os limites são rompidos, observo a lição shmithiana para encerrar debate tosco ou ofensivo e o imito em grau e perfeição.

Agora o debate foi a PEC do teto. Não participei no facebook porque meus amigos economistas querem, em sua grande maioria, participar do poder e o discurso é quase que oficioso. Tenho que respeitar escolhas políticas. E como acusou meu facebook sou um cara complicado, mas amigo dos amigos e de fato eles me aceitam como sou sem críticas e reparos. E eu também os aceito integralmente.

 Mas tratando da PEC do teto ,aqui, especificamente, o tema me faz lembrar exatamente a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ambas têm o mesmo objetivo. Garantir o pagamento da dívida pública. Entretanto, agora, todo o orçamento (exceto juros, obviamente) está sob fogo cruzado. A lógica da dinâmica dessa medida é possível ser descoberta juntando-se comentários aqui e ali. Acredito que Oureiro e Monica De Bolle possam resumir bem esse tema. O primeiro fala dos efeitos populacionais que naturalmente trarão problemas na execução do orçamento para a saúde, resumindo o fato de que o teto vai ter que gerar disputas intrabolo orçamentário – tema que Monica tratou de forma interessante em seu artigo Efeito Voracidade ( Estadão 25.10.16). Mas a mesma Monica em sua entrevista recente no programa Roda Viva apontou hipótese que comungo em gênero e grau: o pib potencial feneceu. Portanto, essa bobagem de economistas milagrosos de que expectativa pode mover montanha vai dar em nada. Essas medidas não irão ressuscitar o defunto. Recessão se aprofundará ou medidas protetoras virão a rodo e o crescimento continuará mequetrefe. O BNDES continuará anacrônico e corrupto. Os bancos públicos continuarão em sua dinâmica perversa e ineficiente. Os impostos ainda serão abusivos e talvez crescente. A dívida pública continuará sua trajetória predadora.


A novidade, portanto, nessa medida é que colocaram na roda todos os participantes (exceto rentistas) do orçamento publico. A turma do INSS já se lascou por conta da retirada do seu indexador salvador: a politica de salário mínimo. Os funcionários públicos entraram na roda. Sua aposentadoria se revelou impagável e indecente. A diferença entre a do INSS e a dos barnabés é que os velhinhos não se organizam e os que estão no INSS não conseguem liderança, porque os sindicatos os isolam. O pau vai cantar. Só há o que Temer!


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