A Escola dos sonhos dos cariocas - Escola Superior de Desenho Industrial - vai morrer.

Nelson Motta escreveu um artigo superbacana (http://oglobo.globo.com/opiniao/a-escola-dos-sonhos-20800981) em que fala da sua escola, a escola dos sonhos, onde poderia: desenhar móveis, eletrodomésticos, logomarcas, cartazes, capas de livros e de discos. Trata-se da faculdade de design – Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), criada pelo então governador Carlos Lacerda. Reclama, com toda razão, do descaso público e  protesta contra o seu fechamento, vítima da falência do Estado do Rio, da incompetência e corrupção de seus governantes. Concordo com ele em gênero e faço minha calibração sutil de grau. Eis minha resposta ao seu artigo.


Tenho um amigo que deve estar lá pelos seus setenta anos  e , em saudade de tempo e distância, sua historia me faz lembrá-lo. Ele percorreu, em pioneirismo dos anos sessenta, a trajetória de um designer, sonhando fazer a revolução tecnológica que só veio acontecer mesmo com os microcomputadores e internet. Claudio Maia , esse meu amigo, estará , malgrado suas limitações físicas que não sei bem do que se trata, fora seu hábito alcoólico de derrubar uma garrafa de uísque ou vodca, dependendo do clima e do dia do mês, na labuta de um designer teimoso. De um de seus trabalhos que me lembro está sua vitória (de pirro) em concurso do Banco Central para estampas de nossas moedas, logo anulado por interesses escusos, com argumento hostil às suas ideias. Privilegiou nossa cultura e tinha índio demais para os poucos caciques. Se não me falha a memoria, também estudara nessa escola e nos anos setenta aportou aqui em Brasília, encostando-se num emprego público que lhe valeu uma aposentadoria digna. Hoje vive no Rio.

Das intermináveis conversas com Claudio me lembro de sua aposta briosa numa indústria brasileira. Naquela época não tinha dissecado o modelo da pilhagem que me faz enquadrar intelectualmente o problema que você trata: o descaso das autoridades públicas com o ensino e principalmente com o ensino que  embute capital humano e engenhosidade valiosos. Esse modelo me faz acrescentar algo mais em sua análise do descaso estadual. O modelo da pilhagem prescinde desse tipo de escola. A razão. Uma economia fechada em que as multinacionais dominam o cenário politico e econômico (eles não são os xerifes, mas são poderosos). Elas não precisam de nossa capacidade criativa. Eles, os mentores e gerentes dessas multinacionais,  já resolveram seus problemas tecnológicos em lugares onde , de fato, as redes produtivas se integram. Não há como negar que estamos integrado a essas redes. Mas apenas através dessas multinacionais que nos isolam. É uma integração apenas aparente e de pouco valor para nossos engenheiros, arquitetos, designers, cientistas e outros mais. Assim, não entendo que o motor do problema que você coloca  esteja na alçada específica dos estados. Eles também são vítimas desse modelo de pilhagem. Claro, pode ainda existir interesses mais canalhas para o seu fechamento!


A origem desse modelo certamente está lá na ditadura que , em seus devaneios estatizantes, fechou a economia numa contabilidade idiota de que poderia substituir todo o tipo de importação (invenção da chamada esquerda muito da direitona). Os empresários tupiniquins adoraram. Quando os milicos não foram mais necessários, trataram de dar no pé. Infelizmente, cuidaram apenas deles e fizeram um pacto com o que há de pior na política brasileira. Eles já tinham feito o desserviço de derrubarem nosso ordenamento jurídico, colocando em leis todos os tipos de privilégio aos poderosos de sempre. Sua  aventura estatizante não  deu certo: o mercado foi mais forte e cobrou a fatura de tanta ignorância de politica econômica e malfeitos outros. Agora, o modelo está convergindo para a sua ruína: empobrecimento geral, pelo uso abusivo de privilégios e descaso com o futuro. Deu ruim e vai continuar a dar ruim.


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