Conterrâneos Velhos de Guerra

Acabei  de assistir o filme Conterrâneos Velhos de Guerra de Wladimir Carvalho. Documentário feito em 1990 sobre um episódio lamentável ocorrido em Brasília em 1959. Foi uma chacina, como tantas que ainda existem em todos os cantos do Brasil, mas nesse documentário se tem a versão popular dos fatos. Nair Heloisa Bicalho de Sousa, professora e socióloga da UnB , retrata também o ocorrido em seu artigo O Massacre da Pacheco  Fernandes Dantas em 1959: Memória dos trabalhadores da construção civil de Brasília”. Na mesma toada sociológica de Wladimir, reivindicam a verdade popular em contraponto às verdades das autoridades, dos poderosos e dos serviçais dos poderosos. O filme de Wladimir deixa claro que os personagens centrais de Brasília não tinham o que dizer.

Wladimir traz à baila os dois personagens da arquitetura brasiliense: Niemeyer e Lúcio Costa. Em primazia da memória oficial em detrimento à memoria popular, marginal a tudo, reproduzo aqui o depoimento de ambos colhido por Wladimir e relatado pela professora:

A versão oficial deste trágico evento está contida no discurso de Lúcio Costa, arquiteto, autor do projeto urbano de Brasília: “ ( se tivesse sabido do massacre na época da construção) não teria dado a menor importância. Do ponto de vista da construção da cidade, isto é apenas um episódio, não tem a menor importância”. Oscar Niemeyer, arquiteto, responsável pelos monumentos modernistas de Brasília, no filme “Conterrâneos velhos de guerra” de Wladimir Carvalho, ao ser perguntado sobre este episódio responde: “Não tive conhecimento disso” . Esta falta de reconhecimento do labor operário intenso, cercado de riscos de acidentes de trabalho que ceifou a vida de centenas de trabalhadores entre 1957 e 1960 e a postura de ignorar um fato de tal relevância para a história de Brasília faz parte do documento da história oficial da cidade.

Continua a professora ainda acrescentando que “O próprio presidente Juscelino Kubitschek no seu livro 50 anos em 5 (1978 : 354) , além de não mencionar o episódio da Pacheco Fernandes Dantas relata que “a nova capital , apesar de sua tradição de operosidade, havia perdido um recorde: o de acidentes de trabalho. Somente 944 ocorrências simples, com um caso fatal, para a maior concentração obreira do mundo em 1960! “

Hoje sei, através de depoimento popular de filho de arquiteto que trabalhou na construção de Brasília, que muitos morreram nessa odisseia candanga. As cúpulas tanto do Senado Federal quanto a da Câmara Federal só se solidificaram depois de diversas tentativas e mortes.

O que fez Wladimir ao questionar os pais da arquitetura candanga? Mostrar que a arquitetura desses dois ícones é uma farsa. Porque arquitetura é sobretudo gente e de responsabilidade plena pelos que tem a obrigação de construir e arquitetar. Um arquiteto fala de uma cidade boa pra se viver e para todos. Uma cidade boa pra se viver tem que ter diversidade e pluralidade. O trabalho tem que ser prazeroso. Seja lá o que for. Ricos e pobres devem conviver em mesmo espaço. Mas os arquitetos sabiam que se tratava de uma obra encomendada politicamente pela elite de empreiteiros em inauguração de uma nova faceta política que se aprimorou em mensalões. Ricos e pobres ficariam onde sempre estiveram: isolados. Apenas próximos, em estratégias marotas de empreiteiros para reduzir o custo de transporte dos operários, incentivando-os a favelizar as redondezas, deixando a remoção apenas após o término da obra. Sempre se confirmou tal estratégia. O povo é bosta e que vivam na merda!

A bem da verdade, faz-se necessário registrar a mudança de estratégia ocupacional da cidade pela plebe rude com o Governador Roriz em Brasília, travestido de arquiteto matuto, mas merecedor do título de arquiteto do planalto: evitou a favelização com a politica de loteamento das cercanias de Brasília. Certamente, os que idolatram Niemeyer e Lúcio Costa irão adorar essa passagem, porque estarão certos de sua ideologia.

Nair Heloísa também registra a forma quase escravagista a que estavam sujeitos os candangos que ergueram Brasília. Ela relata que: “Depoimentos operários registram jornadas de trabalho de 14 a 18 horas diárias, num ritmo incansável de turmas que se revezavam de dia e de noite. Havia também a prática de “viradas” 4 e serão” 5 que se somavam aos domingos e feriados, ocasião em que os trabalhadores faziam horas extras.

Quando eu trabalhei na (construtora Y) eu fazia três viradas por semana (...) entrava segunda-feira sete horas, trabalhava o dia e a noite de segunda para terça. Então, na terça eu dormia o dia e de noite entrava outra vez. Da terça para quarta trabalhava a noite e o dia (...) Aí eu ia folgar outra vez de noite da quarta para quinta. Quando era sexta-feira eu entrava de manhã e trabalhava sexta à noite até sábado. Sábado a gente recebia uma mixaria e ia descansar”. ( SOUSA, 1983: 35-36)

Joffily (1977: 49) confirma em seu livro o excesso de horas trabalhadas: “a partir de 1958 esta imigração (de trabalhadores vindos principalmente do nordeste do Brasil) foi se transformando em verdadeira corrida, pois os salários eram duplicados pelo acréscimo de horas extraordinárias, fornecendo ainda alojamento e ‘bóia’ (comida)“ . Este registro de Jofilly permite inferir que à medida em que se aproximava a data de inauguração de Brasília (21 de abril de 1960) as jornadas de trabalho se intensificavam e os riscos de acidente de trabalho iam subindo de forma expressiva. “

O filme e a professora também falam do pouco caso da sociedade em geral. Wladimir colhe o depoimento de Pompeu de Souza, jornalista à época do episódio. Está lá um discurso nihil. Quanto à repercussão nacional, só alguns leitores atentos puderam saber por alto do que ocorrera no planalto central. O modelo de dominação tem uma rede de sustentação que se apoia na classe média que necessita ter sua versão dos fatos. A do povo, só os artistas e intelectuais é que poderão saber. A historia vergonhosa de nossa arquitetura está registrada pelos nomes ocultos dos candangos que só serão descobertos quando as ruínas de Brasília ocorrerem. Lá estarão os nomes de Josés, Joãos, Joaquins, Manuéis, Getúlios e Franciscos esculpidos nos interiores dos porões dos palácios.

PS: a versão popular dos fatos fala da revolta dos peões da construtora que se indignaram com a bóia servida. Como não havia sindicato local, fizeram um motim que foi reprimido à bala, com tiroteio de um lado só, ceivando cerca de nove vidas. A versão oficial foi de que se tratou de bebedeira e arruaça da candangada. Acabou em briga e com uma morte. Os corpos até  hoje não se sabe aonde estão.







Comentários

  1. Muito interessante! Parabéns!

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  2. Passei por aqui para deixar o meu registro, e saio mais informado e exposto a fatos que geralmente são varridos para debaixo do tapete. O texto é muito elucidativo e nos leva à reflexão. Parabéns, Túlio.

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